Espiritualidade é tribal?

Já dizia um preto-velho, com a sabedoria que só anciãos têm: um terreiro não existe necessariamente para responder a demandas individuais de pessoas que não fazem parte da comunidade, mas isso não significa ignorar as necessidades e urgências de que precisa. Uma espiritualidade coletiva, sobretudo nas religiões com influências africanas e ameríndias, tem como foco, sim, o cuidado com quem faz parte dela. O problema começa quando o cuidado com os assistentes transforma em estrutura permanente de atendimento, deslocando o centro da vida espiritual do coletivo para o indivíduo.

Assistencialismo pode ser bonito na foto. Mas, quando vira estrutura, destrói fundamento. Tradição não é qualquer atendimento. Tradição é vínculo, é compromisso, é permanência.

O terreiro não é pronto-socorro de consulente. É casa de axé. E casa se constrói com presença e, repito permanência, não com urgência. Talvez esse seja o erro maior dos centros espíritas e de umbanda na história recente do Brasil

Casas como o CELV Centro Espiritualista Luz e Vida existem para manter o povo do terreiro vivo, cuidar de quem cuida delas e fortalecer a comunidade que sustenta o sagrado no cotidiano. Para isso, é preciso fugir da lógica da caridade compulsória, que esvazia vínculos, inverte prioridades e transforma a espiritualidade em resposta automática a demandas externas, sem pertencimento nem responsabilidade.

O primeiro compromisso do guia é com o seu tutelado. Isso não é egoísmo espiritual. É ancestralidade. Sem vínculo, não há transmissão. Sem transmissão, não há tradição, apenas performance com resultados duvidosos.

Entidades não se manifestam fora de uma relação viva, construída no tempo, sustentada por presença, aprendizado e responsabilidade. Quando o sagrado é convocado apenas para resolver urgências individuais, ele deixa de formar e passa apenas a reagir. O culto perde profundidade, mudança interior, relação construída sólida. O fundamento se fragiliza.

O segundo compromisso é com a comunidade. E comunidade não é “qualquer pessoa que atravessa a cancela”. Comunidade é território, convivência, responsabilidade mútua, tempo compartilhado, corpo presente. É saber quem cuida de quem, quem sustenta o chão, quem aprende e quem responde por aquilo que recebe.

A espiritualidade contemporânea, marcada por um forte viés individualista e narcísico, tem dificuldade em lidar com limites, espera e compromisso. Busca soluções rápidas, experiências intensas e respostas personalizadas, mas evita o envolvimento real que exige respeito, amor, superação e paciência. O “meu problema” se sobrepõe ao “nosso caminho”. O coletivo vira pano de fundo. O sagrado vira instrumento.

Essa lógica é incompatível com uma espiritualidade que nasce da aldeia, em uma tribo de caboclos, nas cidades antigas dos boiadeiros. Em visões ancestrais de mundo, o indivíduo só existe porque existe o grupo. A ideia expressa em princípios como ubuntu — “eu sou porque nós somos” não é discurso, mas prática cotidiana. O culto não serve apenas para aliviar dores privadas, mas para organizar a vida comum, fortalecer laços, alinhar a comunidade aos ciclos da natureza e sustentar o equilíbrio coletivo.

Resgatar o sentido do terreiro é resgatar a lógica da aldeia. Reviver a luz de uma tribo. É compreender que não existe espiritualidade viva sem comunidade, que não há tradição sem transmissão e que o sagrado não se sustenta quando tudo gira em torno da urgência individual.

Onde o “eu” ocupa todo o espaço, o fundamento se perde.

Onde o “nós” é cuidado, o axé permanece vivo e a Vida segue o fluxo sem barreiras.

Similar Posts